sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Condecorações Colectivas (parte 2ª)







Em 1943 dá-se uma reestruturação das unidades militares do Exército, particularmente nas suas nomenclaturas e honrarias.
A portaria 10:480 lista de forma integral todas as unidades do Exército, todas as suas legendas e títulos de batalha (exemplo Buçaco 1810, França 1917/1918) e naturalmente as condecorações conferidas a todas as unidades, com particular destaque para a Medalha da Cruz de Guerra de 1ª Classe, das quais aqui darei nota individual.*
Esta portaria tem significado valor histórico porque nos dá a conhecer a totalidade(?) das unidades condecoradas com a MCG de 1917.


* Darei nota apenas das Unidades condecoradas com a MCG e do numero de MCG que cada unidade recebeu, não fazendo menção de outras condecorações conferidas ao estandarte das mesmas.
Todas as MCG conferidas a Estandarte são de 1ª classe, conforme legislação.

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Portaria 10:480 que “Designa as unidades da actual organização do Exército que devem ser consideradas legitimas herdeiras das tradições e da história militar dos corpos de tropas das organizações anteriores.” publicada em Diário do Governo de dia Sábado 4 de Setembro de 1943.

Ponto 3;

Regimento de Infantaria Nº3 - Duas (2) Medalhas da Cruz de Guerra
Regimento de Infantaria Nº8 – Três (3) Medalhas da Cruz de Guerra
Regimento de Infantaria Nº12 – Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Regimento de Infantaria Nº13 – Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Regimento de Infantaria Nº14 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra

Batalhão de Caçadores Nº1 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Batalhão de Caçadores Nº2 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Batalhão de Caçadores Nº3 - Duas (2) Medalhas da Cruz de Guerra
Batalhão de Caçadores Nº7 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Batalhão de Caçadores Nº9 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra

Batalhão de Metralhadoras Nº1 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Batalhão de Metralhadoras Nº2 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Batalhão de Metralhadoras Nº3 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra

Regimento de Artilharia Ligeira Nº1- Duas (2) Medalhas da Cruz de Guerra
Regimento de Artilharia Ligeira Nº2- Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Regimento de Artilharia Ligeira (Montanha) Nº5 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra

Grupo Independente de Artilharia de Montanha – Duas (2) Medalhas da Cruz de Guerra
Grupo de Artilharia contra Aeronaves – Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra

Regimento de Artilharia Pesada Nº 1 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Regimento de Artilharia Pesada Nº2 – Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra

Regimento de Cavalaria Nº4 – Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Regimento de Cavalaria Nº6 – Duas (2) Medalhas da Cruz de Guerra

Regimento de Engenharia Nº1 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra
Regimento de Engenharia Nº2 - Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra

Comando Geral da Aeronáutica – Uma (1) Medalha da Cruz de Guerra*


*”Ponto 4- O comando Geral da Aeronáutica terá direito a Bandeira privativa, que ostentará a gravata da Medalha da Cruz de Guerra de 1ª Classe, concedida à esquadrilha inicial de aviação por feitos distintos em combate verificados em França durante a Guerra de 14/18.”

Em 1943 o Exército Português detinha na sua orgânica vinte e cinco (25) unidades condecoradas com uma ou mais Medalhas da Cruz de Guerra.

Em cima: Cerimónia não identificada do RI 13, onde é bem visível o seu Estandarte e o seu Laço da Medalha da Cruz de Guerra de 1ª Classe; década de 40/50; Livro do RI 13.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Boas Festas




A todos faço votos que em família, amizade e carinho, passem estas Festas de Natal.
 
 
 
 
 
 


A imagem parte de um original do Capitão Menezes Ferreira, para o seu livro "João Ninguém; Soldado da Grande Guerra; Impressões Humorísticas do CEP."
Obra muito do meu agrado, vai sendo recorrentemente usada neste vosso espaço. A imagem foi alterada a meu gosto e de forma a ilustrar bem a Quadra.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Laço da Cruz de Guerra de 1ª Classe para Estandarte. Condecorações Colectivas (parte 1ª)





               Pelo decreto 8:357 de 31 de Agosto de 1922, que “Aprova e manda por em execução o regulamento das Ordens Militares Portuguesas”, dá-se cumprimento a uma necessidade legislativa que estava em falta desde 1917: a de legislar sobre a forma de atribuir condecoração colectiva, por feitos de armas, a bandeira ou estandarte regimental e também aos seus militares.


Aquando da promulgação do segundo decreto referente à Medalha da Cruz de Guerra (nº3:259), que regula a sua concessão, fez-se menção desta valência da condecoração, mas nada se acrescentou até 1922.

“ Decreto nº3:259, no número único do seu 2º artigo: A Cruz de Guerra de 1ª Classe pode ser conferia à bandeira ou estandarte das unidades que hajam praticado feitos de armas de excepcional valor.”

                 
Assim diz o artigo que criando o laço para Estandarte da Medalha da Cruz de Guerra de 1ª classe, enobrece e engrandece a História e Valor desta condecoração.

 Decreto 8:357

“Artigo 41- As unidades às quais houver sido conferida a medalha de ouro de Valor Militar (Feito heróico em campanha), a 1ª Classe da Cruz de Guerra (feito de armas de excepcional valor em campanha) ou qualquer grau da Torre e Espada (altos feitos em campanha, ou actos e assinalados serviços à Humanidade, à Pátria e á Republica), usarão sobre o laça da bandeira ou estandarte outro laço de fita de sêda da cor da condecoração de 0m,1 de largura, franjada de ouro, tendo bordada numa das pontas: para a Cruz de Guerra a respectiva palma, para a Torre e Espada a respectiva insígnia.
Este laço repetir-se há por cada vez que a unidade seja condecorada.

Artigo 42 – A concessão das medalhas de Valor Militar, Cruz de Guerra e Ordem da Torre e Espada, por feitos ou serviços relevantes em campanha contra países estrangeiros ou em campanhas coloniais, importa para os militares que tomaram parte naquele feito ou serviço, fazendo parte do efectivo da unidade, formação ou fracção, o uso de um distintivo especial.

Este distintivo, usado com todos os uniformes, será constituído por dois cordões encadeados, de 0m,004 de diâmetro com as cores da fita da condecoração, tendo respectivamente 0m,40 e 0m,60 de comprimento e que se usarão suspensos da platina direita, passando o mais comprido por baixo do braço e indo ambos prender na abotoadura do dólman.

        
Os cordões serão terminados por duas agulhas de 0m,06 de comprimento.
Os cordões e agulhetas serão respectivamente a seda e prata e dourada para os oficiais e algodão e cobre para os praças.

₴ único. Aos militares nas condições deste artigo será feito o respectivo averbamento nos seus registos de matrícula, sem o que não poderão usar o respectivo distintivo.”

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Constatando que este Decreto trata de uma penada só a questão da condecoração colectiva (que podemos dividir entre condecoração colectiva para Estandarte, vulgo Laço, e condecoração colectiva para uso individual, vulgo cordões ou fourragére), é imperioso dar aviso que este artigo apenas influi sobre o Laço para Estandarte, na sua legislação e estética, deixando para outra altura a condecoração colectiva para uso individual.

As variações encontradas nos diversos modelos de Laço da Medalha da Cruz de Guerra são tantas, que ultrapassam em larga medida as variações encontradas nas insígnias cunhadas e transmutações possíveis de obter com diferentes fitas e miniaturas de classe, tornando-se, assim, muito difícil encontrar dois Laços iguais. Ao contrário das medalhas, não são produzidos mecanicamente e em número significativo, apesar das numerosas unidades condecoradas e de todos os Laços de substituição ou duplicados que estas unidades requereram e requerem.

A justificação imediata para a enorme disparidade estética na execução dos Laços prende-se à extrema dependência da execução manual destas Insígnias, ao critério que cada casa de condecorações ou de artigos militares adopta para a sua execução e à natural condicionante de recursos financeiros e materiais disponíveis.

Variações documentadas no Laço da Cruz de Guerra:

 - Na Forma:

Os laços variam no tamanho, não havendo qualquer modelo padrão a seguir. Uns muito “armados” e rígidos, outros muito leves e caídos (depende da qualidade da fita e da presença ou não de arame na armação superior do laço). Uns com abas largas e fita pendente longa, outros com abas curtas e fita pendente não muito maior.
             
Outros existem que não respeitam a forma de laço. Compreendem, apenas, duas fitas da Cruz de Guerra, com 10cm de largo, caídas, atadas no topo e presas à lança de Estandarte.
              
Deste último modelo resta-me apurar, junto dos exemplares documentados, o motivo de se encontrarem assim, se por confecção, se por desaparecimento do laço do Laço.

- Na Fita:

Garante quase sempre a largura legislada de 10cm mas varia, tal como a fita da medalha, no número de listas verdes (entre 5 a 7) que raiam o vermelho predominante. A fita é regra geral tecida de uma só vez, existindo, no entanto, peças em que as listas verdes estão cozidas a uma echarpe de seda vermelha. O verde varia entre o amarelo esverdeado, o verde alface e o verde marinho.

 - Na insígnia: Em metal ou bordada:

- Em metal, se for uma medalha saída de um dos muitos cunhos existentes, quer seja no modelo de 1917, no de 1949 ou 1971. Pode estar em forma de medalha simples ou, mais recentemente, com os louros, ou seja, a mesma insígnia que a gravata de 1ª classe no modelo de 1971. É geralmente doirada, embora a cor predominante nos exemplares conhecidos de 1917 seja o normal castanho bronze. Ainda em metal surgem diversas peças estilizadas, que não são medalhas, ainda assim muito trabalhadas, mas sem grande detalhe, cunhadas ou gravadas e trabalhadas à mão. Estas últimas variam no tamanho, sendo quase sempre de menor dimensão que as insígnias originais.

            
- Bordadas, se for uma insígnia lavrada em fio metálico ou simples, manualmente. Pode, como nos modelos mais recentes, sensivelmente desde o início da Guerra do Ultramar, ser uma cópia exacta em aspecto e dimensão da medalha real, ao contrário do que acontecia anteriormente nos laços, em cujas Cruzes eram bordadas de forma muito simples, sem grande detalhe ou volume (salvo raras e belas excepções).


-Franjas:

Em canutilhos de metal dourado ou amarelo, variando na espessura e comprimento, em lã, algodão ou outro tecido entrelaçado em forma de corda, variando também na espessura e comprimento.

 -Atilhos:

O Atilho é a tira de tecido que prende o Laço à lança do Estandarte. Pode ter muitas e variadas formas. Pode, nos exemplares mais ricos, ser a fita da Cruz de Guerra com os regulamentados 3cm de largo, ou a sua miniatura. Pode ser uma fita de seda negra, vermelha, verde ou azul, de variada largura. Pode, por fim, ser um simples cordão escuro.

Em alguns modelos dos Laços existentes é comum, independentemente da variação estética deste e do período de concessão, encontrarmos uma medalha de 1ª classe completa, cozida numa das duas fitas pendentes ou no “nó” que prende o laço do Laço.

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A imagem que abre este artigo é um Laço para Estandarte Regimental, que orgulhosamente faz há algum tempo parte da minha colecção, esquecido algumas décadas numa antiga butique de artigos militares, foi em boa hora resgatado, pouco tempo antes do desaparecimento da loja.
              Com sete listas verdes e não cinco, em seda moiré, creio tratar-se dos primeiros lotes de fita a chegar a Portugal para este efeito. Não tendo qualquer insígnia bordada, ostenta, no entanto, uma Cruz de Guerra do Modelo de 1949 em metal amarelo, sem palma.
              A franja em lã dourada é entrelaçada em forma de corda curta, não ficando a dever, em qualidade, aos canutilhos metálicos. Por fim, o atilho em seda vermelha remata e sustenta toda a peça.

 Na foto que fecha o artigo, o Sr. Almirante Américo Thomaz condecora o 7º Destacamento de Fuzileiros, na Praça do Comércio/Terreiro do Paço nas cerimónias do 10 de Junho de 1969.





Um fraterno agradecimento ao Dr. Humberto Nuno de Oliveira, presidente da AFP que me auxiliou na identificação da unidade condecorada nesta cerimónia.




quinta-feira, 28 de novembro de 2013

"A Medalha Militar 150 anos (1863-2013)"





Não foi descuido, esquecimento ou uma acção deliberada da minha parte não ter feito aqui nota e publicidade sobre a belíssima exposição que assinalou o 150º aniversário da Medalha Militar.
Em verdade, fui forçado a “pendurar” uma série de esboços para alguns artigos, entre os quais esta pequena “noticia”. Todos eles vitimas de um problema informático que durou mais do que o previsto.

Aos leitores desta página, um pedido de compreensão pelo sucedido.

 

No ano em que se comemoram os 150 anos sobre a fundação da Medalha Militar e do Museu de Marinha por El Rey D. Luiz, a Armada Portuguesa em profícua aliança com a Academia Faleristica de Portugal, ergueu uma exposição com peças de grande valor e significado histórico, vindas das reservas do Museu de Marinha.

A exposição foi inaugurada a 1 de Outubro pelo Sr. Almirante Bossa Dionísio e pelo Comissário Cientifico da exposição o Académico Paulo Estrela. Ambos proferiram uma breve alocução à efeméride, sendo a ultima de grande contributo pedagógico para o entendimento do conceito cientifico de Faleristica, e do seu impacto na História e Cultura.
A noite da inauguração, que contou com largas dezenas de convidados ilustres e anónimos, entre os quais dezena e meia de Académicos da AFP, terminou com um concerto sinfónico pela Banda da Armada.

A Marinha, acolheu de forma fraternal todos aqueles que durante um mês quiseram e puderam visitar o pavilhão central da Cordoaria Nacional, onde estiveram cerca de uma dezena de vitrines com uma mostra de elevado valor, mérito e reconhecimento da presença de Portugal no Mar.


Por fim, dizer que é obvia a relação entre esta exposição e a Medalha da Cruz de Guerra.
Em primeiro lugar porque a MCG é actualmente parte integrante da classe “Medalha Militar”,  depois porque em dois dos espólios estão presentes Medalhas da Cruz De Guerra; no do Sr. Capitão-de-Mar-e-Guerra José Eduardo de Carvalho Crato, nota para a presença do seu belo Diploma; e no do Sr. 1.º Tenente António Luis Gouveia Prestes Salgueiro, nota para a urgente necessidade de restauro da sua insígnia de 1ª classe.
Ambas as Medalhas são do modelo de 1917.




Tendo sido ultrapassado pelo tempo, deixo aqui dois links de grande interesse para quem queira “visitar" a exposição, finda a possibilidade de o fazer fisicamente;

-O primeiro é reservado ao sitio da AFP e da excelente nota que foi dada sobre esta exposição:

http://www.acd-faleristica.com/archives/3629

-O segundo, é para o meritório trabalho do Blog Reserva Naval, sitio da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, onde é dada uma excelente reportagem fotográfica das peças em exposição:

http://reservanaval.blogspot.pt/2013/11/exposicao-medalha-militar-150-anos-1863.html

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Medalha da Cruz de Guerra de 1917, 3ª Classe





A peça que aqui vos deixo hoje é à semelhança da última, uma Medalha da Cruz de Guerra de 3ª Classe.

Difere da ultima em primeiro lugar por se tratar do modelo fundador que a antecedeu em  30 anos, e por consequência mostrar todas as diferenças e manutenções legislativas, estéticas, politicas e culturais entre o modelo de 1916 e 1946.

1916/1917- Um modelo de desenho fino, mais amplo e leve, num só metal de cunho para todas as classes, diferenciando apenas o metal da miniatura de classe. Em semelhança com a maioria das condecorações nacionais tinha um listel circular com inscrições várias; no caso : “República Portuguesa 1917”.

1946/1949- Um desenho austero e quase sempre descuidado nos detalhes, de linhas grossas, estética mais Imperial e menos Republicana, mais pesado, sem qualquer listel indicativo de data ou nacionalidade. Este modelo era cunhado em vários metais (iguais aos das miniaturas) consoante a classe e não na habitual liga de bronze do modelo anterior.
Seguramente um desenho menos condicionado pela Croix de Guerre Francesa e pensado à luz do todo Nacional Pluricontinental e não na legitimação da Jovem Republica inserida no contexto da Grande Guerra de 14/18.

Manteve-se, como vimos no último texto com uma peça da minha colecção, a fita rubra raiada de verde e a muito Portuguesa cruz pátea templária.



A peça em exposição;

Uma Cruz de Guerra de 1917 igual à maioria dos modelos que aqui tenho trazido, uma patina um pouco disforme e gasta mas conservando ainda a sua tonalidade chocolate original, uma fita que embora muito descuidada e fustigada pelo tempo, detém a particularidade de ser inferior à altura que a cruz pendente, encorpando uma forma quase triangular.
Esta forma curta e triangular da fita constituía a habitual maneira de usar os primeiros exemplares atribuídos da MCG.
A miniatura de classe parece-me à vista desarmada uma peça de prata sólida, apesar de na digitalização mostrar um ar meio cobreado. Não na mais comum forma de folha simples, esta miniatura como outra que aqui já trouxe com a MCG de 2ª Classe de La Lys, foi cunhada em relevo detalhado.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O Marechal Gomes da Costa e as "suas" Medalhas da Cruz de Guerra



Embora o titulo possa induzir o leitor em erro a uma primeira vista, convém esclarecer de imediato que não vou, pelo menos neste texto, falar da Cruz de Guerra de 1º Classe que ostenta o Sr. Marechal Gomes da Costa.
Vou antes partilhar um texto das suas memórias onde elogiando a valentia, coragem e humanidade do Soldado Português expedicionário à Flandres, fala não daquela Cruz de Guerra que mereceu, mas daquelas que deu a merecer aos mais valorosos filhos da Pátria Portuguesa.

Assim escreveu:

"Quando hoje se ouve dizer, - os soldados são excelentes,- não é isto um simples cumprimento: são-o realmente. Há neles alguma coisa grande e de belo sob a sua casca rude; a sua delicadeza é toda interior. Pertencendo à categoria dos "incultos, rudes, mal educados, sem preparação, sem maneiras", é nesta vida selvagem da trincheira que mostram o que são e o que valem; - verdadeiros tesouros sem baixeza nem crueldade.

Espreitam o alemão pela ranhura de mira da alça e metem-lhe a bala na cabeça, se o "boche" cai em a meter na sua linha de mira; mas se um "boche" que o fere, levanta em seguida, ferido também, as mãos, agarra nele, leva-o à ambulância, cura-o, dá-lhe o seu pão, dá-lhe o seu vinho, dá-lhe a sua camisa.

Devemos todos inclinar-nos cheios de respeito e cheios de admiração diante deste pobre  "gambúzio", que meteram num navio com uma arma às costas, sem lhe dizerem para onde ia; que colocaram numa trincheira diante do "boche", sem lhe dizerem por que se batia; que passou meses queimado pelo sol do fogo, enregelado pela neve, atascado em lama, encharcado, tiritando com frio, encolhido num buraco enquanto as granadas lhe estoiram em redor; carregando à baioneta quando o "boche" avança e que, com uma perna partida, ou o crânio amachucado por uma bala, estendido no catre da ambulância, ao ver-nos, tinha uma alegria imensa no olhar, murmurando:  O nosso giniral! Aí vem o nosso giniral! Oh meu giniral, agora ganhei a Cruz de Guerra? Pois não?

E nunca me há de esquecer a impressão que um destes pobres seres me causou, quando, ao pregar-lhe a Cruz na camisa da ambulância que vestia, o pobre, não podendo mexer os braços, ambos partidos, estendeu a cabeça e me beijou as mãos...

E outro, muito pequeno, a quem ao dar-lhe o abraço que era costume meu dar àqueles que recebiam a Cruz de Guerra, me abraçou pela cintura e ali ficou preso numa convulsão...

São verdadeiros tesouros, que não podemos deixar de estimar e admirar depois de com eles viver na guerra. E é por isso que natural e instintivamente, os que como eu compreendem põem na continência, com que à sua correspondem, um respeito real e sincero, que está fora dos nossos hábitos.

E há resmungões no meio de isto tudo, porque resmungar é uma paixão do soldado, ou por outra uma distracção, quando tudo corre bem! Pelo contrário, quando tudo vai mal, ninguém resmunga.

Ao terminarem um parapeito, com toda a perfeição, a terra varrida à vassoura, os taludes bem direitos, as arestas bem vivas, vem um morteiro pesado e esmaga tudo.

O bom do "gambúzio" olha para a sua obra de oito dias destruída, e resmunga: Ora, responde outro, isto é bom para não engordarmos muito.

A noite é escura, o frio aperta, os homens estão cobertos de lama gelada, o seu dia de trabalho destruiu-o o "boche" num minuto, é preciso recomeçá-lo; e, sem mau humor, recomeçam-no.

Era preciso uma pena fácil e elegante para mostrar a todo o Portugal quanto valem os nossos soldados e quanto merecem que por ele façam.

A morte, encaram-na de frente e rindo, e em cada minuto da vida de trincheira praticam actos de generosidade, desprendimento e heroísmo espontâneo, que na vida civil estabeleceriam reputação."

A imagem que abre este texto mostra o Sr. Marechal a uma secretária de despacho depois do Golpe de 17 de Junho de 1926, em uniforme de campanha, ostentando apenas e como era de sua maneira e costume e também de legislação, a Cruz de Guerra Portuguesa e curiosamente, pela mesma medida uma vez que de uma Cruz de Guerra também se tratava, a medalha Italiana Cruz ao Valor de Guerra.
Era grande o apreço que tinha o Sr Marechal pela MCG; são muitas as photografias onde o podemos ver fazendo uso apenas da nossa Medalha da Cruz de Guerra.
 Este Uniforme e esta combinação de condecorações é exactamente a mesma que envergará a quando da sua partida para o exilio ainda em 1926.

A imagem que encerra o texto, ilustra de forma magnifica as palavras deixadas por Manuel Gomes da Costa; tirada antes da sua partida para Lisboa após lhe ter sido retirado o comando do CEP, fez questão de premiar com a MCG os que por valentia cravaram no solo da Flandres o nome de Portugal. Ao acto de solene e institucional seguia-se o acto humano de fraternidade e reconhecimento que só um abraço entre Camaradas transmite.

Já reparam por certo que é uma versão estilizada deste “instantâneo do front português” que há largos meses serve de fundo a este vosso Blog.




domingo, 28 de julho de 2013

Capitão de Infantaria Cardoso de Azevedo; Herói da Cruz de Guerra






Aníbal Francisco Gonçalves Cardoso de Azevedo, nasceu na Freguesia de Sacramento em Lisboa na zona do Chiado a 1 de Setembro de 1892. Era filho de Francisco Cardoso de Azevedo e de sua esposa Sr.ª D. Emilia Maria Gonçalves.

Em França aos 25 anos como Alferes do BI 14 de Viseu, irá tornar-se um dos mais destacados e respeitados oficiais ao serviço do CEP.
Imortalizou o seu nome nas páginas da História de Portugal quando já como Tenente, comandou o 1º Pelotão da 1ª Companhia do BI14 sob as ordens do Capitão Vale de Andrade, no Raid de 19 de Março de 1917 sobre as linhas Germânicas no Sector Português de Neuve Chapelle.
Relatam memórias que foi o primeiro Português a por as botas em trincheira inimiga naquela noite, e aquele que mais longe foi tendo atingido a linha de retaguarda inimiga.

Por actos de bravura semelhantes foi um dos militares Portugueses mais condecorados na Flandres tendo sido promovido a Capitão de Infantaria e posto como adido ao Estado-Maior do CEP.


O seu valor enquanto Militar não lhe foi só reconhecido pelos seus camaradas de trincheira. Da sua caderneta militar constam duas Medalhas da Cruz de Guerra de 2ª Classe, uma Medalha de Prata classe Valor Militar, Cruz de Cavaleiro da Ordem de Cristo com Palma, Medalha de Prata de Comportamento Exemplar, Medalha das Campanhas do Exército Português cm Legenda “França 17-18”,Medalha Inter-Aliada da Vitória, cavaleiro da Legião de Honra da Republica Francesa e por fim a muito prestigiada Military Cross (Cruz Militar) do Reino Unido. Todas estas condecorações podem ser vistas na magnifica photografia que acompanha este texto.

De notar a fita da Medalha da Cruz de Guerra; muito mais larga até que a fita de sete raios verdes. Poderá indicar uma fita não regulamentar desconhecida ou ser a fita da Croix de Guerre Francesa. Notar também as duas miniaturas de classe na mesma fita embora muito afastadas.



Desempenhou em Timor cargos de chefia militar e administrativa em Manatulo e Lantem e na Metrópole foi o segundo Comandante do Corpo de policia Cívica de Lisboa, antecessora da PSP.

Monárquico convicto não se coibiu de servir a Pátria Republicana quando ela mais precisou.

Virá a falecer aos 34 anos a 15 de Outubro de 1926.

Fica a promessa de aqui trazer os louvores das duas Medalhas da Cruz de Guerra.





Photografia em: http://www.geni.com/people/An%C3%ADbal-Francisco-Gon%C3%A7alves-Cardoso-de-Azevedo/6000000016227585287