sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Contra-Almirante Fernando d´Oliveira Pinto, Herói da Cruz de Guerra (revisto)


 
Fernando d´Oliveira Pinto, 1888/ 1961, Contra-Almirante e Vice-Almirante da Marinha de Guerra Portuguesa, Herói da Cruz de Guerra.

Figura de incontornável relevo na história moderna da nossa Marinha, chegou a ser por curto período de tempo, chefe de Estado-Maior Naval (actualmente e desde  1955 Estado Maior da Armada) entre 31 de Dezembro de 1948 e 10 de Dezembro de 1949.

A Grande Guerra apanhou-o na força da Idade, e nela se manifestaram as melhores qualidades que tinha para oferecer à Pátria, à República, à Armada e aos seus camaradas de armas.

Homem de grande valor militar, moral e intelectual, teve durante a participação Portuguesa na 1ª Grande Guerra, oportunidade de ilustrar algumas das mais brilhantes páginas dos feitos de armas da Marinha, naquele grande confronto que era a disputa dos mares Portugueses entre David e Golias.  

Ainda antes da declaração de guerra a Portugal pela Alemanha, a 9 de Março de 1916, já os nossos travavam em Africa, mais uma vez e não pela ultima, já contra o Império de Guilherme II,  as batalhas e os combates que fizeram rubra de sangue e vitória a bandeira dos nossos avós.
Ao sul  de Angola se escreveram muitas páginas de História, uma delas com o nome de Oliveira Pinto.
Jovem 2º Tenente, integrou umas das muitas colunas mistas com homens de Marinha e do Exército que tinham a espinhosa missão de pacificação das tribos indígenas da zona fronteiriça e do combate ao invasor Alemão.
Notabilizou-se pelos combates no Cuanhama e nas cargas de infantaria que ali comandou, tendo por isso sido condecorado com a medalha da Cruz de Guerra de 3ª Classe.

Mais tarde, já de regresso à armada e ao mar, vem a dar-se um episodeo pouco conhecido mas de significativo valor histórico e militar para a guerra no mar e para Portugal.

Era a tarde de 21 de Agosto de 1918, o mítico Patrulha de Alto Mar, muitas vezes referido como Caça-Minas Augusto de Castilho, sob o comando do então 1º Tenente Oliveira Pinto, têm um encontro inesperado com um grande submarino Alemão.
Ao largo do Cabo Raso, perto de Cascais, às portas da Capital do Império e de um porto seguro para os Aliados, dá-se o combate.  Desta vez vencido pelo Augusto Castilho (ao contrário do que acontecerá mais tarde no Açores contra um outro submarino Alemão, o U-139), que com um certeiro disparo da peça de 65mm de avante, pôs fora de combate o submarino inimigo que prontamente se pôs em fuga.
Por este acto será condecorado com a medalha da Cruz de Guerra de 2ª Classe.

Virá a falecer a 29 de Junho de 1961, no ano em que começa a Guerra de Angola, pela ultima vez na história de Portugal, em Lisboa, província e cidade que defendeu com risco de vida décadas antes.

O conjunto de condecorações que ostenta o Sr. Almirante Oliveira Pinto, nesta fotografia da minha colecção, é certamente digno de admiração. Para este artigo, e no seguimento do anterior,  destacam-se naturalmente as duas Cruzes de Guerra cujas histórias foram já aqui contadas.

Pois como já referi, até 1946, a legislação impunha que as Cruzes de Guerra concedidas não se repetissem fisicamente tantas quantas vezes concedidas ao mesmo individuo, mas sim apenas se repetissem em miniatura de classe na mesma fita de uma única Cruz de Guerra.
Esta fotografia posterior a essa data, reflecte precisamente a alteração legislativa de 46, onde se repetem as Cruzes de Guerra e não apenas as classes.

 As Medalhas da Cruz de Guerra do Contra-Almirante D´Oliveira Pinto, uma de 2º Classe, e a outra de 3ª Classe, têm como anverso a República em acordo com a lei, e curiosamente as fitas têm sete raios verdes, pouco comum de encontrar na década de 50.

Os louvores:

"Decreto de 31 de Maio de 1919 (D.G. 139 e 143, 2ª Série, 1919



Hei por bem, sob proposta do Ministro da Marinha, e tendo em vista o parecer da comissão encarregada de propor recompensas por feitos durante o estado de guerra, decretar que seja concedida a Cruz de Guerra de 2ª classe, aos Oficiais abaixo mencionados, pelos motivos que a cada um vai indicado:
...
1º Tenente Fernando de Oliveira Pinto – pela co­ragem e decisão que demonstrou no dia 21 de Agosto de 1918, sendo Comandante do Caça-Minas Augusto de Castilho, quando, ao largo do Cabo Raso, este navio atacou, com tiros de peça, um submarino inimigo de grandes dimensões.



Decreto de 22 de Agosto de 1922 (D.G. 198, 2ª Série, 1922
Por decretos de 22 de Agosto corrente, sob pro­posta do Ministro da Marinha, e tendo em vista o parecer da comissão de recompensas às expe­dições no ultramar, foi galardoado o pessoal da Armada abaixo mencionado pela forma e serviços que lhes vai indicado:
...
Cruz de Guerra de 3ª classe:

1º Tenente Fernando de Oliveira Pinto – porque, tendo feito parte da coluna que em 1915 operou no sul de Angola, no posto de 2º Tenente, distinguiu-se pela
inteligência, energia, actividade, resistência à fadiga, espírito disciplinador em todos os serviços e ainda valentia de que deu mostras nos combates travados no Cuanhama, e em especial na direcção das cargas executadas pelos seus pelotões em 20 de Agosto. "



Várias curiosidades podemos absorver desta magnifica fotografia, mas a que mais me agrada é a evolução da Medalha militar entre o modelo de 1919 da Medalha de Valor Militar com palma, e a de Serviços distintos de 1946 que, ladeiam respectivamente pela direita e pela esquerda as medalhas da Cruz de Guerra.

O meu publico agradecimento ao amigo e académico P. Estrela,  que mais uma vez me cedeu este conjunto de louvores, também ele grande estudioso, investigador e conhecedor  da medalha da Cruz de Guerra.  

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A República do avesso...



Com o titulo que se apresenta este texto, bem que podia ser um de comentário politico e critico ao estado a que chegou a Republica, essa nobre conquista da história e do povo Português.

Mas não, neste 5 de Outubro, trago mais uma das minhas peças de 1917, com uma curiosa particularidade, acompanhada de mais um pequeno apontamento histórico, onde o titulo é totalmente faleristico.

 Sendo a Republica muito jovem em 1917, de estranhar seria se todos os militares ao seu serviço fossem totais simpatizantes e apoiantes do novo regime.
Patriotas e bravos, como todos os bons filhos de Portugal, certamente que o eram. Republicanos? Essa era uma outra história...
Muitos monárquicos convictos, como comprovam as revoltas de 1919, e muitos Republicanos descontentes como mostra todo o período da 1ª Republica, perfilavam no Exército e na Armada.
O 28 de Maio de 1926, movimento que instaurou a Ditadura Nacional, foi o culminar de uma parte conturbada da nossa história.

 A peça que aqui deixo, é interessante em primeiro lugar por suportar duas classes; e em segundo, e daqui o titulo do post, ter a Efígie da Republica voltada para trás.

Durante a Republica não era raro vermos prestigiados oficiais, entre os quais o líder do levantamento militar de Braga, fazendo uso dos símbolos monárquicos então abolidos, nas insígnias faleristicas que ostentavam.

Com o 28 de Maio e os momentos históricos que lhe seguiram, há um progressivo afastar da simbologia Republicana da vida publica militar e civil.
Há aliás um vídeo disponível na cinemateca digital de uma parada militar em Lisboa, coroando o movimento militar de Mendes Cabeças e Costa Gomes, a pretexto da comemoração do fim da Grande Guerra, onde da tribuna de honra pende uma Medalha da Cruz de Guerra de grandes dimensões com o escudo nacional voltado para a frente.
(Não farei uso dos termos "anverso" e "reverso" para não confundir a descrição)
Esta Cruz de Guerra terá pertencido muito provavelmente a alguém que participou no movimento supra-referido, ou que não simpatizando com a Republica, decidiu literalmente, voltar-lhe a cara.

Introduz também, algo que algures por aqui já tinha escrito, a existência de várias classes na mesma fita.
Muito ao arrepio da Croix de Guerre Francesa que ostentava várias citações na mesma fita, a Cruz de Guerra Portuguesa de 1917 poderia, como aqui faz, mostrar mais do que uma classe por fita, em vez de, como mais tarde se legislou, a Cruz repetir-se tantas quantas as classes que um condecorado possa receber.

Posto isto, podemos identificar aqui a 2ª e 4ª Classe, miniatura de folha simples sem relevo, estando aqui numa fita de época em muito bom estado de conservação, apontando apenas como ponto fraco, uma patina clara e desgastada, mas ainda assim uniforme e sem ponta de corrosão.
Terá certamente cumprido bem o seu papel glorificador ao seu merecedor, que em África, no Mar ou na Flandres ao serviço do CEP ou do CAPI, recebeu tão nobre galardão por duas vezes.

Este post surge de uma conversa que tive há dias com um bom amigo, que me fez saber que na sua colecção tem também uma destas Cruzes de Guerra em que a Republica foi "substituída" pela esfera armilar.

Conhecemos várias fotos da época (pós 28 de Maio), em que a prática de as voltar se generalizou. E conhecemos ainda alguns, não muitos, mas suficientes espólios particulares bem identificados em que podemos até encontrar duas medalhas da Cruz de Guerra, em que numa a Republica é o Anverso e noutra a esfera armilar é o Anverso, indicando claramente a necessidade de as alternar consoante o momento politico.



Clique aqui para ver o video supra referido na cinemateca.



sábado, 15 de setembro de 2012

A Gravata para a 1ª Classe da Cruz de Guerra



Sendo o modelo mais conhecido desta peça faleristica o regulamentado a 20 de Dezembro de 1971, no Decreto 566/71 que "promulga a medalha militar e as medalhas comemorativas de campanha das forças armadas", a verdade é que já em 1946/49 se previa o uso da 1ª classe da MCG como insígnia de pescoço, embora nunca se tivesse regulado ou legislado de forma clara no que concerne ao seu uso ou desenho.
Durante algum tempo foi difícil encontrar uma prova do uso da Gravata de 1ª Classe do modelo de 1946, não havendo legislação sobre o seu desenho ou prova fotográfica do uso de uma, pouco mais poderíamos fazer do que imagina-la.

 Contudo descobri recentemente uma imagem do Major-General Hélio Felgas, publicada aquando da sua morte em 2008 pelo Jornal do Exército, onde podemos ver a gravata de 1946 em uso com o Colar da Ordem da Torre e Espada. Um achado esclarecedor.
A Gravata supra-referida, pouco mais é do que uma Cruz igual à insígnia de peito com um canevão cinzelado a motivos vegetalistas e uma fita de suspensão também ela igual à insígnia de peito.


 
 
 
 
 
 Quanto ao modelo de 1971, bem regulamentado e documentado, não é difícil encontrar-mos boas
referências visuais do seu uso.

São disto exemplo as Gravatas de 1ª Classe da MCG modelo 1971 do General Comando Almeida Bruno*, Capitão de Mar e Guerra Fuzileiro Rebordão de Brito, ou do Comandante Fuzileiro Francisco Oliveira Monteiro.
Entre todas as três supra-referidas existem sérias diferenças de cunho, cor ou fita de suspensão, contrariando assim o artigo regulador que diz o seguinte:

 " Insígnia para pescoço (1ª classe):

Gravata Constituída por fita com as características indicadas para a fita de suspensão para a insígnia de peito, mas com a largura de 0,038mm;

Pendente: de bronze;
Cruz idêntica à descrita para a insígnia de peito, mas cercada de duas vergonteas de louro, frutadas e atadas nos topos proximais com um laço."

 Dada a séria dificuldade em encontrar a fita de suspensão de 38mm, é usada quase sempre a fita de 30mm igual à da insígnia de peito.
Quanto aos pendentes a variação é também grande. Em certas gravatas a cruz é de bronze e as vergônteas de oiro, como nesta da minha colecção que aqui vos deixo, semelhante à do General Almeida Bruno, noutras a cruz e as vergônteas são da mesma cor mas, separadas, cruz e vergônteas por 2 ou 3 mm, noutras ainda predomina o doirado. Os cunhos completos conhecidos são vários. Variando entre o cunho completo de cruz e Vergônteas, ou cunhos só para as vergônteas a soldar à posteriori à Cruz.

 Sendo raro vermos a gravata em uso, podendo haver um desconhecimento face à sua existência que o justifique, incapacidade monetária para a adquirir por parte dos Veteranos de guerra ou mesmo por inadaptação estética, todos os militares condecorados com a 1ª Classe da Cruz de Guerra podem usa-la como gravata quando não tiverem sido condecorados com a 1ª classe da medalha de Valor Militar, que ocupará naturalmente o seu lugar na ordem de imediata precedência hierárquica.O uso da Gravata não impede o uso de qualquer colar de uma ordem militar.

 *Sobre a Gravata do General Almeida Bruno: É ainda incerto se o cunho da cruz da sua Gravata é o de 1971 ou o de 1946, mas sendo conhecidas as imagens que provam o uso da gravata com as vergônteas, suponho oficialmente que se trate do modelo de 1971. Ainda que intimamente suponha, dadas as provas fotográficas,  que se trate do de 1946.

Nota: A Gravata apresentada em 1º lugar neste artigo é de minha autoria e foi montada apenas  para ilustrar neste artigo a gravata em uso pelo Major-General Hélio Felgas. Fazendo uso de uma insignia autentica, não se trata de uma condecoração atribuida.
O mesmo não se passa com a 2ª gravata, que faz parte da minha colecção, está bem documentada e é um dos poucos exemplares que conheço cunhada em dois metais diferentes.
Ambas as fitas estão digitalmente cortadas para não ocuparam demasiado espaço horizontal na galeria de imagens.


sábado, 7 de julho de 2012

Cinco Cruzes de Guerra de 1ª Classe aos Boinas Rubras.




No passado dia 29 de Junho as tropas Comando cumpriram cinco décadas ao serviço da pátria e das suas gentes.
Aos nossos "cabeças de fósforo", Boinas Rubras de Portugal, parabéns pela honra no cumprimento do seu dever.

Em reconhecimento do exposto, deslocou-se o Chefe de Estado ao Centro de Tropas Comando para assistir à parada e desfile da ordem, apontando como feliz elemento a presença dos Veteranos Comandos, e a imposição do Laço da Cruz de Guerra a cinco unidades que prestaram heróico serviço na última guerra do Ultramar.

Transcrevo do Diário da Republica as concessões das Insígnias por ordem da Chancelaria das Ordens Honorificas Portuguesas:

"Diário da República, 2.ª série — N.º 128 — 4


Aviso (extrato) n.º 9091/2012
Guerra — 1.ª Classe.
O Presidente da República decreta, nos termos do artigo 33.º, n.º 1, do Decreto -Lei n.º 316/2002, de 27 de dezembro, o seguinte:

É concedida à 19.ª Companhia de Comandos, a Medalha da Cruz de Guerra — 1.ª Classe

27 de junho de 2012. — O Secretário -Geral das Ordens, Arnaldo Pereira Coutinho;

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Aviso (extrato) n.º 9092/2012
Guerra — 1.ª Classe.
O Presidente da República decreta, nos termos do artigo 33.º, n.º 1, do Decreto -Lei n.º 316/2002, de 27 de dezembro, o seguinte:

É concedida à 30.ª Companhia de Comandos, a Medalha da Cruz de Guerra — 1.ª Classe

27 de junho de 2012. — O Secretário -Geral das Ordens, Arnaldo Pereira Coutinho;

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Aviso (extrato) n.º 9093/2012
Guerra — 1.ª Classe.
O Presidente da República decreta, nos termos do artigo 33.º, n.º 1, do Decreto -Lei n.º 316/2002, de 27 de dezembro, o seguinte:

É concedida ao Batalhão Comando do Extinto Comando Territorial Independente da Guiné, a Medalha da Cruz de Guerra — 1.ª Classe

27 de junho de 2012. — O Secretário -Geral das Ordens, Arnaldo Pereira Coutinho;

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Aviso (extrato) n.º 9094/2012
Guerra — 1.ª Classe.
O Presidente da República decreta, nos termos do artigo 33.º, n.º 1, do Decreto -Lei n.º 316/2002, de 27 de dezembro, o seguinte:

É concedida à 33.ª Companhia de Comandos, a Medalha da Cruz de Guerra — 1.ª Classe

27 de junho de 2012. — O Secretário -Geral das Ordens, Arnaldo Pereira Coutinho;

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Aviso (extrato) n.º 9095/2012
Guerra — 1.ª Classe.
O Presidente da República decreta, nos termos do artigo 33.º, n.º 1, do Decreto -Lei n.º 316/2002, de 27 de Dezembro, o seguinte:

É concedida à 20.ª Companhia de Comandos, a Medalha da Cruz de Guerra — 1.ª Classe

27 de Junho de 2012. — O Secretário -Geral das Ordens, Arnaldo Pereira Coutinho; "


Nesta cerimónia, presidida por Sua Excelência o Presidente da Republica, foi adicionada, ainda que tardiamente, maior justiça, honra e reconhecimento ao papel não só dos Comandos, mas de todos quantos passaram pela Guiné e de forma alargada por todos os teatros de operações no Ultramar.

Espero que sejam enviados todos os Cordões de Condecoração Colectiva, Fourragéres, a todos os Veteranos ainda vivos das Companhias e do Batalhão condecorados. Era um gesto simpático e justo.




Audaces Fortuna Juvat!

Em cima: Guião do Batalhão de Comandos do Comando Territorial da Guiné, condecorado com o laço de 1ª classe da Cruz de Guerra. (de minha autoria)

Em baixo: Foto da cerimónia;

Links uteis para informação complementar:

  http://www.presidencia.pt/comandantesupremo/?idc=305&idi=67351

https://www.facebook.com/media/set/?set=oa.408065645905841&type=1#!/media/set/?set=oa.408065645905841&type=1


O meu agradecimento ao amigo P. Estrela que em boa hora me alertou para a publicação em Diário da Republica destas cinco condecorações.








terça-feira, 22 de maio de 2012

Um ano, Uma peça nova.



Cumpre-se hoje um ano sobre o lançamento deste Blogue.

Devo agradecer antes de mais, aos leitores, aos amigos, aos curiosos, aos faleristas, aos coleccionadores, aos amadores, aos que cá vêm regularmente e aos que cá vêm por engano.
Este é um projecto que veio para ficar.  Falar sobre um tema que se esgota, sem poder variar muito, em Portugal, para portugueses, sobre história, sobre faleristica, é efectivamente um grande tiro no escuro, mas que, feito o balanço deste primeiro ano, foi certeiramente disparado.

Milhar e meio de leitores, cinco seguidores, numerosos comentários técnicos e de alento, numerosos contactos privados para esclarecimento de dúvidas ou compromissos vários, alguns contactos com o estrangeiro, várias publicações nos tops de pesquisa dos principais motores de busca, enfim, posso dizer que até agora, tenho cumprido com o que me comprometi desde o meu primeiro post, e relembro:" Este blogue surge da necessidade de ter um suporte on-line onde a medalha da cruz de guerra da Republica Portuguesa seja o objecto de estudo principal."

A muito do que me propus ainda não dei resposta, e acredito que a muito do que se possa esperar deste Blogue muitas respostas tenho que dar. Farei sempre o meu melhor, com a periodicidade que me for possivél, embuido da certeza e do espírito que cada publicação, cada leitura, cada pesquisa, cada contacto, cada imagem, é um claro contributo para a partilha e ensino da nossa História.

Feito os agradecimentos e o balanço deste nosso primeiro ano, fica no seguimento do post anterior uma nova peça da minha colecção;





Esta peça é-me, como todas as outras, muito querida. Talvez com uma pequena diferença, é que esta como poucas outras pode rapidamente contar-me muito sobre o agraciado. Prometo uma pesquisa séria e dar aqui nota sobre o que descobrir.

No post anterior referi, transcrevendo da legislação, que as medalhas atribuídas por feitos em campanha eram ornamentadas na fivela pela letra "C", significada naturalmente da palavra Campanha, contudo mais tarde na década de 20, em Diploma ainda a encontrar, a letra "C" foi substituída por uma palma doirada, indicando assim que aquela condecoração foi entregue por feitos em Campanha.

(Sei agora, tratar-se do Decreto n.º 11.649, de 7 de Maio de 1926, que às portas do Golpe do 28 de Maio e do inicio da Revolução Nacional, decretou atribuir-se as palmas às ordens e medalhas atribuídas em feitos de campanha contra inimigos da Pátria, não suprimindo os "C", mas relegando-os para identificar as ordens e medalhas atribuídas em campanhas internas, nas revoltas, revoluções, golpes e contra golpes na defesa da Republica ou contra a Republica.)

O conjunto acima é em tudo sublime. Fivelas e barra em prata patinada de negro, possivelmente para não reflectir o Sol em Uniforme de Campanha, fitas em bom estado de preservação de cor e textura, e palmas incrustadas nas fivelas.
É também um conjunto de grande valor militar, mostrando as duas maiores condecorações à época (O T.E./ M.D.C.) (1920), sendo mais do que certo terem pertencido a um grande e valoroso português que se arriscou na Flandres ou em África, pela Republica e por todos nós.

Da Esquerda para a direita; Ordem Militar da Torre e Espada com Palma (impossivél destrinçar o grau dada a ausência de roseta), Medalha da Cruz de Guerra de 4ª Classe, duas Medalhas Militares de Bons Serviços com Palma. (Relativamente à Ordem da Torre e Espada, sei agora que, dada a ausência de roseta, é altamente provável tratar-se do grau de Cavaleiro.)

É de notar um estranho nivelamento inferior das fitas, algo nada comum à época, mas que se justifica com a existência mais do que provável de uma segunda barra, para pelo menos conter a Medalha Inter-Aliada da Vitória.


O meu grande e publico agradecimento a um amigo que fez questão de me ajudar no encontro dos decretos, e no esclarecimento da identificação da O.T.E.

A hierárquia e ordem de precedência da medalha militar, a Cruz de Guerra e a 1ª Republica 1919



A 8 de Novembro de 1919, já posteriormente ao cessar do troar dos canhões na Flandres e em Àfrica, sobre proposta do Ministro da Guerra, é promulgada a regulamentação do uso das ordens e medalhas militares Portuguesas.
Este meu artigo vem também preencher uma lacuna na informação disponível na web sobre faleristica nacional e cumprir uma velha promessa minha de vos trazer e dar a conhecer esta matéria.
Nada melhor, para o fazer, do que transcrever directamente da legislação à data, o que aqui quero deixar.
Ilustrarei com a ajuda do Paint o transcrito da Legislação, dando assim a conhecer graficamente o que me proponho aqui a mostrar.


"Decreto nº 6:205, 8 de Novembro de 1919

Regulamento das Ordens Militares Portuguesas. Ordem do Exército nº23, 1ª série.

Capitulo I (...) Capitulo V (...)

Capitulo VI: Disposição Comum às Diferentes Ordens;

...
Artigo 32º. As condecorações Portuguesas são colocadas em primeiro lugar, da direita para a esquerda, no lado esquerdo do peito, pela ordem da seguinte precedencia: Torre e Espada, Cruz de Guerra, Cristo, Avis, S. Tiago, Medalha Militar (valor militar, bons serviços, comportamento exemplar) e Medalha da Vitória. A seguir as ordens e condecorações estrangeiras.

#.1º As medalhas militares conferidas por serviços de campanha - letra C - têm precedência sobre a Ordem de Cristo.

#.2º As medalhas comemorativas das campanhas do exército português, as do mérito, filantropia e generosidade e a de bons serviços no ultramar, usam-se do lado direito do peito, da esquerda para a direita pela ordem acima mensionada. As cruzes e medalhas da Cruz Vermelha colocar-se hão após estas.

#.3º Quando os distinivos das condecorações não se contenhão numa só linha, a ordem de preferência começará pela linha supeiror.

#.4º Só é permitido o uso das fitas das condecorações sem fivela no uniforme de camapnha.

#.5º Aos oficiais e praças é permitido o uso das insignias da Torre e Espada, Cruz de Guerra e medalha de Valor Militar, em passeio com qualquer uniforme.

... "



Este Decreto é uma verdadeira revolução, não só pelo afirmar da reintrodução das antigas ordens militares banidas em 1910, não só pela regulamentação do uso das Ordens e das Medalhas, mas também pela introdução das condecorações colectivas de unidades, até então só entregues a Praças citiadas ou Cidades/Vilas heróicas. Mas isto das condecorações colectivas, ficará para outra altura.

Podemos então ver a importância que a Medalha da Cruz de Guerra assume neste Decreto e durante todo o momento histórico da 1ª Republica.
Se por exemplo em França a Croix de Guerre vêm depois da Medaille Militaire e da sempre primeira Legion d´Honor, por cá a Medalha da Cruz de Guerra, contrariamente ao que acontece hoje e desde 1946, assumia lugar de destaque logo a seguir ao mais alto galardão a que um Português pode aspirar, a bem amada e querida Ordem da Torre e Espada.


Este artigo foi revisto a 09/01/2013, alterando a imagem que o acompanha com a finalidade de uniformizar via paint todas as imagens deste tipo que avante se julguem pertinentes partilhar neste Blog.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

As primeiras Medalhas da Cruz de Guerra da Guerra do Ultramar




Falar da Cruz de Guerra é falar de Portugueses, da sua História, das suas histórias, e em particular de dois momentos, da Grande Guerra de 14/18, e da Guerra do Ultramar.

Se a primeira foi um misto de trauma e dificuldades para a sociedade civil, mas um grande factor histórico e politico de regozijo para a jovem Republica, a segunda, ainda é, e continuará sendo durante largos anos uma ferida profunda, bem aberta e tristemente ignorada ou esquecida no meio da sociedade Portuguesa.
A Guerra Colonial afirma-se como o ultimo grande momento de mostra de heroicidade para a sociedade civil e militar Portuguesa, que entre 1960 e 1975 viveu os últimos momentos do Império, e os primeiros momentos de Independência dos Povos Africanos.

A 28 de Janeiro de 1962 na Vila de Damba, Província do Uige, Norte de Angola na Fronteira com o Congo, são entregues em 40 anos as primeiras Medalhas da Cruz de Guerra, que se destinavam a galardoar a heroicidade do primeiro ano de guerra, numa cerimónia que contou com as mais altas individualidades Provinciais como o Governador Geral Venâncio Deslandes, General Holbeche Fino, o Brigadeiro Luís Deslandes, entre outras.

Nesta cerimónia foram entregues seis Cruzes de Guerra, todas de 4ª classe e todas à Companhia de Caçadores 144, subordinada ao Batalhão de Caçadores 141 do Regimento de Infantaria 15, pelos feitos levados a cabo a 11 de Setembro de 1961 por homens que debaixo de fogo se lançaram na perseguição do inimigo ao atravessarem o rio Coji conseguindo mostrar grande espírito do sentido do dever e do sentido Pátrio, tendo terminado a sua missão só quando se findaram as munições, já muito depois do comandante do grupo, o alferes que indicarei a seguir, se encontrar gravemente ferido.

Os nomes;

-António João Monteiro Madeira, soldado nº 287/61; Medalha da Cruz de Guerra de 4ª Classe.
-António Júlio Branquinho, soldado nº 205/61; Medalha da Cruz de Guerra de 4ª Classe.
-Apolinio Catreira da Cruz, soldado nº 275/61 ; Medalha da Cruz de Guerra de 4ª Classe.
-Armindo Pereira Francisco, soldado nº 284/61 ; Medalha da Cruz de Guerra de 4ª Classe.
-José Manuel Gonçalves Dias, Furriel Miliciano ; Medalha da Cruz de Guerra de 4ª Classe.
-Leonildo Cirilo Monteiro, Alferes Miliciano ; Medalha da Cruz de Guerra de 4ª Classe.

Resta-me destacar uma frase do comandante da companhia de caçadores 144, o Tenente-Coronel Pereira de Carvalho, proferida no inicio da cerimónia de condecoração; "Todos sabem dar a vida pela Pátria, onde e quando a Pátria precisa!".

Ao topo uma insígnia da Cruz de Guerra de 4ª Classe, de 1946/1949, semelhante às que os nossos bravos receberam.
Na imagem em baixo, o General Governador-Geral Venâncio Deslandes condecora os militares supra-referidos na vila de Damba a 28/01/1962.

No dia 28 de Janeiro deste ano, passaram cinco décadas, 50 anos, sobre este momento importante da história e da phaleristica portuguesa.