quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A Medalha aos Precursores da Républica na Cidade do Porto e a Revolta do 31 de Janeiro de 1891.





A 31 de Janeiro de 1891, os homens de Infantaria 10, Infantaria 18, Caçadores 9 e uma brigada da Guarda Fiscal sublevaram-se na Invicta cidade do Porto contra o estado a que o Estado tinha então chegado.
A fome e a miséria eram o quotidiano não do Porto mas de Portugal, as potências estrangeiras controlavam-nos o comércio e as principais indústrias, a bancarrota era uma ameaça constante e uma realidade castradora…
 
O resto já se sabe. A Revolução Republicana no Porto fracassou, mas ficou para a história como um exemplo de desafio, coragem e patriotismo. Naquele dia a Republica viu em Portugal a sua primeira hora de uma longa noite que tarda em dar lugar ao quente sol da manhã que a 31 de Janeiro e a 5 de Outubro se esperou raiar sobre Portugal.

Foi há 122 anos.

Já repararam por certo que não é uma Medalha da Cruz de Guerra, e que portanto é mais um desvio ao ponto central de estudo que aqui tento trazer. Não obstante é uma condecoração que com ela partilha muitas características phaleristicas comuns.
Ambas nascem para ser outorgadas a militares e civis que pela sua bravura se destacaram em determinado evento glorificante para a Republica e para Portugal, ambas cunhadas em bronze/liga de cobre, ambas partilham as novas cores nacionais na fita de suspensão, ambas carregam o busto da Republica voltado à direita no Anverso, ambas carregam a data de instituição. As comparações são naturalmente feitas com o modelo da MCG 1917.

Esta é a Medalha Comemorativa da Revolução de 31 de Janeiro de 1891, instituída pelo Decreto nº 7.260, de 27 de Janeiro de 1921, publicado no Diário do Governo nº19 na 1ª Série e na Ordem do Exercito nº 1 também na sua 1ª Série ambos no mesmo ano do decreto.


“Sendo de inteira justiça a criação de uma medalha comemorativa da Revolução de 31 de Janeiro de 1891, para ser usada pelos sobreviventes desse movimento, verdadeiros percursores da República, como penhor do verdadeiro e inolvidável apreço dos serviços prestados por esses mesmos combatentes, que, pelos seus actos de dedicado arrojo e espírito de sacrifício, tem jus à gratidão da Pátria e da República:

                Hei por bem decretar, sob proposta do Ministro da Guerra, o seguinte:

                Artigo 1º É criada uma Medalha comemorativa da Revolução de 31 de Janeiro de 1891 na Cidade do Porto, e destinada tanto aos militares como a indivíduos da classe civil que tomaram parte nesse movimento.

                Artigo 2º A medalha será de bronze, tendo numa das faces a efígie da República e as datas de 1891-1921 e na outra a legenda AOS PRECURSORES DA REPÚBLICA NA CIDADE DO PORTO.

                SS único. A medalha será usada no lado direito do peito, pendente de fita de seda bipartida verde e vermelha, sendo a fivela substituída por uma passadeira do mesmo metal em forma de palma de louros com as datas referidas neste artigo. Com o trajo civil poder-se há fazer uso de uma roseta de 16 mm de diâmetro da cor da fita, tendo sobreposta uma palma igual à já descrita e de menores dimensões.

O Ministro da Guerra o faça publicar – Paços do Governo da República, 27 de Janeiro de 1921. – ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA – Álvaro Xavier de Castro”.

Assim por este Decreto nasce 30 anos depois do levantamento militar do Porto a medalha que lembra não só este momento mas também e principalmente os que nela se fizeram notar.
Até 1926, foram outorgadas a veteranos civis e militares 177 condecorações.

Além destes, foram ainda concedidas a titulo colectivo duas medalhas, uma à Cidade do Porto e outra à 3ª Brigada da Guarda Fiscal que na Proclamação da Republica de 1891 se fez notar.
Desta última, transcrevo o diploma que a confere:

"Decreto de 14 de Janeiro de 1922:

Tendo em consideração os actos de arrojada decisão e inexcedível fé republicana com que no Batalhão n.º 3 da Guarda Fiscal se assinalou o movimento revolucionário de 31 de Janeiro de 1891:

Hei por bem decretar, sob proposta do Ministro da Guerra, que seja conferida ao Batalhão n.º 3 da guarda fiscal a medalha de bronze, comemorativa da revolução de 31 de Janeiro de 1891, criada pelo decreto n.º 7 260, de 27 de Janeiro de 1921.

 António José de Almeida – Fernando Augusto Freiria (Ministro da Guerra). ”

Fica então aqui a minha lembrança deste dia e destes homens e mulheres, conhecidos ou anónimos, que com sangue, armas e palavras fizeram o sonho e a história de Portugal e dos Portugueses.


-Melo, Olímpio de; 1922; Ordens Militares Portuguesas e outras condecorações – Lisboa; Imprensa Nacional de Lisboa.

-Estrela, Paulo Jorge; 2010; As Revoluções Republicanas na Faleristica Nacional – Lusíada Série II, nº7; Lisboa; Universidade Lusíada Editora.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Major-General Jaime Neves, Cruz de Guerra de 1ª Classe

                       .     


.....
Foi hoje a enterrar o Major-General Jaime Neves.

Jaime Alberto Gonçalves das Neves, 1936/2013, faleceu neste passado fim-de-semana no Hospital Militar da Estrela, vítima de complicações respiratórias.
Por ser um oficial de grande prestigio junto daqueles que com ele serviram e, por ter sido condecorado com a Medalha da Cruz de Guerra, é-lhe neste Blog devida uma nota de lembrança.



Em baixo:
Insígnia da Medalha da Cruz de Guerra de 1949, 1ª classe, igual à que nesta fotografia ostenta o então capitão Jaime Neves.
Não em prata dourada como preferia a lei que a regulava, mas sim em latão ou cobre dourado, faz uso de uma bonita miniatura de classe, essa sim em prata dourada, muito ao estilo da de 1917.
Quando a comprei, a fita estava rasgada, suja e presa por quatro ou cinco linhas de fio. Decidi substitui-la.



                                    .    



 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Medalha da Cruz de Guerra de 1917 1ª Classe




Que melhor forma de aqui trazer uma Medalha da Cruz de Guerra de 1ª Classe de 1917, se não consagrá-la a todos os que há quase um século caíram na Flandres, no Mar e em África, para que nós aqui pudéssemos estar?

Este Blogue surge primeiro como forma de partilhar a minha colecção; posteriormente, quase em simultâneo, como forma de adquirir e publicar conhecimento sobre ela; e hoje algum tempo volvido sobre o seu aparecimento, sou diariamente ultrapassado pelo crescimento de uma e de outro sem que aqui vos consiga dar actualizada nota disso.


A Insígnia:

Esta foi a minha primeira de algumas Medalhas da Cruz de Guerra de 1ª Classe de 1917. Ainda não vos tinha trazido nenhuma, e entre as que tenho, decidi trazer a 1ª que adquiri.

Apesar de alguma falta de uniformidade na coloração deste exemplar, a Patina está em franco bom estado, sem apresentar pontos de corrosão ou desgaste sério.
A fita, de cinco raios verdes, está em muito bom estado, assim como os pontos de costura que a unem no reverso.
A miniatura de classe divide-se entre a Coroa de Louros que está, quer na coloração quer na integridade, em excelente estado, e, a miniatura da Cruz que apresenta uma semelhante qualidade de coloração mas uma pequena “dentada de cunho” no braço direito.





“Longe, muito longe do céu azul de Portugal, dos montes verdejantes ou das fartas campinas das suas províncias, descansam pois, nos ásperos climas da Flandres, os nossos Mortos da Grande Guerra.
…………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Ó Mães de Portugal, mulheres de uma só fé, que do Norte ao Sul educais os vossos filhos nas heróicas tradições da nossa raça, ensinai a amar essa humilde figura de soldado que sustentou em África e na Flandres as mais rudes pelejas, porque assim, perante a Ingratidão Humana, conseguireis depor, no eterno Pantheon da Memória dos vossos filhos, o cadáver de “João Ninguém”, esse “Soldado Desconhecido” de uma grande nação desconhecida.”

Imagem e palavras finais do Livro “João Ninguém, Soldado da Grande Guerra, impressões humorísticas do CEP” do Capitão Menezes Ferreira.

Também este Livro pela sua intrínseca ligação à Medalha que aqui estudamos, terá direito a um futuro artigo.




terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A hierárquia e ordem de precedência da medalha militar, a Cruz de Guerra e a 1ª Republica 1921


No seguimento do artigo " A hierárquia e ordem de precedência da medalha militar, a Cruz de Guerra e a 1ª Republica 1919 " de 23 de Março de 2012, fica aqui este Decreto de 1921 que lhe serviu de adenda introduzindo a medalha infra-referida, mantendo a Medalha da Cruz de Guerra como a segunda mais alta condecoração Portuguesa.


"Decreto nº 7:721, 4 de Outubro de 1921

 

Alterando o regulamento das Ordens. Ordem do Exército n.º 10, 1.ª série.Considerando que no Regulamento das Ordens Militares Portuguesas, aprovado por Decreto de 8 de Novembro 1919, não figura a Medalha de Filantropia e Caridade do Instituto de Socorros a Náufragos a que se refere o Decreto de 6 de Novembro de 1914;

Considerando que pelo disposto no ss único do Art.º 23.º do Regulamento dos Serviços de Socorros a Náufragos aprovado por aquele Decreto, a referida Medalha é considerada oficial e nele se determina que a mesma deve ser usada do lado direito do peito:

Hei por bem decretar, sob proposta do Ministro da Guerra que o ss 2.º do Art.º 32.º do Regulamento das Ordens Militares Portuguesas passe a ter a redacção seguinte:

ss 2.º As medalhas comemorativas das campanhas do exército português, as de mérito, filantropia e de generosidade, as de filantropia e caridade e as de bons serviços no ultramar, usam-se do lado direito do peito, da esquerda para a direita, pela ordem acima mencionada."







Aproveito para dar alguns exemplos de outras condecorações nacionais que poderiam seguir-se na fila da direita, naturalmente, antes das condecorações estrangeiras, ou à nossa esquerda quando indicadas por lei:
-Medalha dos Socorros a Náufragos, de notar que usará durante os seus primeiros anos enquanto medalha republicana a mesma fita que a medalha das campanhas do exército português; 
-Distintivo de Promoção por Distinsão em Campanha, até 1946/49 sem medalha, usando só o agraciado a fita simples. Fundada a 2/12/1919, pelo decreto n.º 6264.
- Distintivo de Mutilados e Estropiados de Guerra, usada nas mesmas condições que a de cima. Fundada a 5/10/1919 pelo decreto n.º 4886.
- Medalha comemorativa do 30º aniversário da revolução do 31 de Janeiro de 1891.
-Medalha comemorativa da revolução do 5 de Outubro de 1910 instituída pela Câmara Municipal de Lisboa.




Fica aqui também uma palavra de FIRME critica e repudio à Google, que deu mais um passo na "bisbilhotice de bairro" a que nos tem vindo a habituar, obrigando-me agora a ter que carregar as imagens para este nosso Blog via "álbuns web picasa". Com este passo, o que antes era simples, é agora complicado. Forjando falsas dificuldades técnicas, deram-me como única opção fazer o "upload" das imagens via "porta do cavalo", ao invés de o fazer directamente deste Blog acedendo às minhas imagens no meu PC. Enfim, encontraram mais uma forma de me vincular à Google, arrancando-me mais dados pessoais.
Não fosse o gosto pela História, pela Medalha da Cruz de Guerra, e pelos nossos leitores, e a Google tinha a partir de já, menos um assinante.A todos um bom ano de 2013, dentro das esperadas dificuldades que nos têm posto à frente. Saibamos todos, com coragem e determinação ultrapassa-las.



quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

II Congresso de Heráldica Militar no Museu Militar de Lisboa







No passado dia 11 de Dezembro, teve lugar no Museu Militar de Lisboa, o II congresso de Heráldica Militar.

Mais de uma década depois do I Congresso de Heráldica Militar, decidiu em boa hora o Exército e a Direcção de História e Cultura Militar, realizar tão importante evento para todos aqueles que se entregam e dedicam ao estudo e ao gosto da Heráldica, da Faleristica e da História Militar.
Pela primeira vez, foi a nossa Academia convidada a participar e a contribuir de forma valorativa para o decorrer e produto dos trabalhos.

Por convite da Direcção de História e Cultura Militar e claro da Academia Faleristica de Portugal, foi o autor deste Blog convidado para ser responsável por uma comunicação ao Congresso.

Foi uma honra e um gosto ter aos 21 anos de idade, partilhado a mesa com tão elevados nomes da Faleristica Nacional. Ali, no Museu Militar de Lisboa, na sala da Grande Guerra sobre o olhar atento dos que tombaram na Flandres, naquelas paredes imortalizados por Sousa Lopes.

Assim o painel da tarde foi de inteira responsabilidade da AFP, dedicada naturalmente à Faleristica Militar, onde, sob a condução do Dr. José Vicente de Bragança, Vice-Presidente da AFP, foram proferidas as seguintes comunicações;

- “No alvor das Condecorações Militares: a Campanha do Rossilhão” pelo Académico Prof. Doutor Humberto Nuno Oliveira, fundador e Presidente da Direcção da AFP.

-“A medalha das Campanhas na transição da Monarquia para a República” – pelo Académico Dr. Paulo Jorge Estrela, Secretário da AFP.

- “A Medalha da Cruz de Guerra, a sua estética e história(s) na defesa da República e do Império.” pelo Autor deste Blog

Desta ultima comunicação gostaria de retirar e deixar-vos aqui umas palavras:

“A medalha da Cruz de Guerra faz parte do nosso imaginário. Sem as suas histórias e louvores, não poderíamos nunca compreender da mesma forma o Século XX Português.
 É parte da vida dos muitos que a mereceram e dos muitos que a viram ser merecida.
É lembrada por ser símbolo maior de abnegação, coragem e heroicidade para as várias gerações de Portugueses que na Flandres, no Mar, na Índia e em África fizeram muitas das páginas da história de Portugal.”

Resta-me tornar aqui pública uma palavra pessoal de gratidão ao Exército Português, à Direcção de História e Cultura Militar e ao seu Director o Sr. Major-General Hugo Eugénio dos Reis Borges pela forma exemplar, cordata e amiga como todos os conferencistas, em especial os académicos da AFP e, particularmente, o autor deste Blog, foram recebidos e tratados ao longo de todo o processo na preparação e no decorrer dos trabalhos deste II Congresso.

Em cima: Armas da Academia Faleristica de Portugal, imagem com a qual terminei a minha Comunicação ao II Congresso de Heraldica Militar. É de notar que ao centro carrega uma Cruz de Guerra estilizada.


Sobre os trabalhos e o decorrer do Congresso, aconselha o autor a visitar os links infra indicados, no sitio online do Exército, da AFP, e do "Operacional":

http://www.exercito.pt/Noticias/Paginas/IICONGRESSODEHER%C3%81LDICAMILITARNOMUSEUMILITARDELISBOA.aspx

http://www.acd-faleristica.com/archives/3147

http://www.acd-faleristica.com/archives/3180

http://www.exercito.pt/Noticias/Paginas/IICONGRESSODEHER%C3%81LDICAMILITARNOMUSEUMILITARDELISBOA.aspx

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Contra-Almirante Fernando d´Oliveira Pinto, Herói da Cruz de Guerra (revisto)


 
Fernando d´Oliveira Pinto, 1888/ 1961, Contra-Almirante e Vice-Almirante da Marinha de Guerra Portuguesa, Herói da Cruz de Guerra.

Figura de incontornável relevo na história moderna da nossa Marinha, chegou a ser por curto período de tempo, chefe de Estado-Maior Naval (actualmente e desde  1955 Estado Maior da Armada) entre 31 de Dezembro de 1948 e 10 de Dezembro de 1949.

A Grande Guerra apanhou-o na força da Idade, e nela se manifestaram as melhores qualidades que tinha para oferecer à Pátria, à República, à Armada e aos seus camaradas de armas.

Homem de grande valor militar, moral e intelectual, teve durante a participação Portuguesa na 1ª Grande Guerra, oportunidade de ilustrar algumas das mais brilhantes páginas dos feitos de armas da Marinha, naquele grande confronto que era a disputa dos mares Portugueses entre David e Golias.  

Ainda antes da declaração de guerra a Portugal pela Alemanha, a 9 de Março de 1916, já os nossos travavam em Africa, mais uma vez e não pela ultima, já contra o Império de Guilherme II,  as batalhas e os combates que fizeram rubra de sangue e vitória a bandeira dos nossos avós.
Ao sul  de Angola se escreveram muitas páginas de História, uma delas com o nome de Oliveira Pinto.
Jovem 2º Tenente, integrou umas das muitas colunas mistas com homens de Marinha e do Exército que tinham a espinhosa missão de pacificação das tribos indígenas da zona fronteiriça e do combate ao invasor Alemão.
Notabilizou-se pelos combates no Cuanhama e nas cargas de infantaria que ali comandou, tendo por isso sido condecorado com a medalha da Cruz de Guerra de 3ª Classe.

Mais tarde, já de regresso à armada e ao mar, vem a dar-se um episodeo pouco conhecido mas de significativo valor histórico e militar para a guerra no mar e para Portugal.

Era a tarde de 21 de Agosto de 1918, o mítico Patrulha de Alto Mar, muitas vezes referido como Caça-Minas Augusto de Castilho, sob o comando do então 1º Tenente Oliveira Pinto, têm um encontro inesperado com um grande submarino Alemão.
Ao largo do Cabo Raso, perto de Cascais, às portas da Capital do Império e de um porto seguro para os Aliados, dá-se o combate.  Desta vez vencido pelo Augusto Castilho (ao contrário do que acontecerá mais tarde no Açores contra um outro submarino Alemão, o U-139), que com um certeiro disparo da peça de 65mm de avante, pôs fora de combate o submarino inimigo que prontamente se pôs em fuga.
Por este acto será condecorado com a medalha da Cruz de Guerra de 2ª Classe.

Virá a falecer a 29 de Junho de 1961, no ano em que começa a Guerra de Angola, pela ultima vez na história de Portugal, em Lisboa, província e cidade que defendeu com risco de vida décadas antes.

O conjunto de condecorações que ostenta o Sr. Almirante Oliveira Pinto, nesta fotografia da minha colecção, é certamente digno de admiração. Para este artigo, e no seguimento do anterior,  destacam-se naturalmente as duas Cruzes de Guerra cujas histórias foram já aqui contadas.

Pois como já referi, até 1946, a legislação impunha que as Cruzes de Guerra concedidas não se repetissem fisicamente tantas quantas vezes concedidas ao mesmo individuo, mas sim apenas se repetissem em miniatura de classe na mesma fita de uma única Cruz de Guerra.
Esta fotografia posterior a essa data, reflecte precisamente a alteração legislativa de 46, onde se repetem as Cruzes de Guerra e não apenas as classes.

 As Medalhas da Cruz de Guerra do Contra-Almirante D´Oliveira Pinto, uma de 2º Classe, e a outra de 3ª Classe, têm como anverso a República em acordo com a lei, e curiosamente as fitas têm sete raios verdes, pouco comum de encontrar na década de 50.

Os louvores:

"Decreto de 31 de Maio de 1919 (D.G. 139 e 143, 2ª Série, 1919



Hei por bem, sob proposta do Ministro da Marinha, e tendo em vista o parecer da comissão encarregada de propor recompensas por feitos durante o estado de guerra, decretar que seja concedida a Cruz de Guerra de 2ª classe, aos Oficiais abaixo mencionados, pelos motivos que a cada um vai indicado:
...
1º Tenente Fernando de Oliveira Pinto – pela co­ragem e decisão que demonstrou no dia 21 de Agosto de 1918, sendo Comandante do Caça-Minas Augusto de Castilho, quando, ao largo do Cabo Raso, este navio atacou, com tiros de peça, um submarino inimigo de grandes dimensões.



Decreto de 22 de Agosto de 1922 (D.G. 198, 2ª Série, 1922
Por decretos de 22 de Agosto corrente, sob pro­posta do Ministro da Marinha, e tendo em vista o parecer da comissão de recompensas às expe­dições no ultramar, foi galardoado o pessoal da Armada abaixo mencionado pela forma e serviços que lhes vai indicado:
...
Cruz de Guerra de 3ª classe:

1º Tenente Fernando de Oliveira Pinto – porque, tendo feito parte da coluna que em 1915 operou no sul de Angola, no posto de 2º Tenente, distinguiu-se pela
inteligência, energia, actividade, resistência à fadiga, espírito disciplinador em todos os serviços e ainda valentia de que deu mostras nos combates travados no Cuanhama, e em especial na direcção das cargas executadas pelos seus pelotões em 20 de Agosto. "



Várias curiosidades podemos absorver desta magnifica fotografia, mas a que mais me agrada é a evolução da Medalha militar entre o modelo de 1919 da Medalha de Valor Militar com palma, e a de Serviços distintos de 1946 que, ladeiam respectivamente pela direita e pela esquerda as medalhas da Cruz de Guerra.

O meu publico agradecimento ao amigo e académico P. Estrela,  que mais uma vez me cedeu este conjunto de louvores, também ele grande estudioso, investigador e conhecedor  da medalha da Cruz de Guerra.  

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A República do avesso...



Com o titulo que se apresenta este texto, bem que podia ser um de comentário politico e critico ao estado a que chegou a Republica, essa nobre conquista da história e do povo Português.

Mas não, neste 5 de Outubro, trago mais uma das minhas peças de 1917, com uma curiosa particularidade, acompanhada de mais um pequeno apontamento histórico, onde o titulo é totalmente faleristico.

 Sendo a Republica muito jovem em 1917, de estranhar seria se todos os militares ao seu serviço fossem totais simpatizantes e apoiantes do novo regime.
Patriotas e bravos, como todos os bons filhos de Portugal, certamente que o eram. Republicanos? Essa era uma outra história...
Muitos monárquicos convictos, como comprovam as revoltas de 1919, e muitos Republicanos descontentes como mostra todo o período da 1ª Republica, perfilavam no Exército e na Armada.
O 28 de Maio de 1926, movimento que instaurou a Ditadura Nacional, foi o culminar de uma parte conturbada da nossa história.

 A peça que aqui deixo, é interessante em primeiro lugar por suportar duas classes; e em segundo, e daqui o titulo do post, ter a Efígie da Republica voltada para trás.

Durante a Republica não era raro vermos prestigiados oficiais, entre os quais o líder do levantamento militar de Braga, fazendo uso dos símbolos monárquicos então abolidos, nas insígnias faleristicas que ostentavam.

Com o 28 de Maio e os momentos históricos que lhe seguiram, há um progressivo afastar da simbologia Republicana da vida publica militar e civil.
Há aliás um vídeo disponível na cinemateca digital de uma parada militar em Lisboa, coroando o movimento militar de Mendes Cabeças e Costa Gomes, a pretexto da comemoração do fim da Grande Guerra, onde da tribuna de honra pende uma Medalha da Cruz de Guerra de grandes dimensões com o escudo nacional voltado para a frente.
(Não farei uso dos termos "anverso" e "reverso" para não confundir a descrição)
Esta Cruz de Guerra terá pertencido muito provavelmente a alguém que participou no movimento supra-referido, ou que não simpatizando com a Republica, decidiu literalmente, voltar-lhe a cara.

Introduz também, algo que algures por aqui já tinha escrito, a existência de várias classes na mesma fita.
Muito ao arrepio da Croix de Guerre Francesa que ostentava várias citações na mesma fita, a Cruz de Guerra Portuguesa de 1917 poderia, como aqui faz, mostrar mais do que uma classe por fita, em vez de, como mais tarde se legislou, a Cruz repetir-se tantas quantas as classes que um condecorado possa receber.

Posto isto, podemos identificar aqui a 2ª e 4ª Classe, miniatura de folha simples sem relevo, estando aqui numa fita de época em muito bom estado de conservação, apontando apenas como ponto fraco, uma patina clara e desgastada, mas ainda assim uniforme e sem ponta de corrosão.
Terá certamente cumprido bem o seu papel glorificador ao seu merecedor, que em África, no Mar ou na Flandres ao serviço do CEP ou do CAPI, recebeu tão nobre galardão por duas vezes.

Este post surge de uma conversa que tive há dias com um bom amigo, que me fez saber que na sua colecção tem também uma destas Cruzes de Guerra em que a Republica foi "substituída" pela esfera armilar.

Conhecemos várias fotos da época (pós 28 de Maio), em que a prática de as voltar se generalizou. E conhecemos ainda alguns, não muitos, mas suficientes espólios particulares bem identificados em que podemos até encontrar duas medalhas da Cruz de Guerra, em que numa a Republica é o Anverso e noutra a esfera armilar é o Anverso, indicando claramente a necessidade de as alternar consoante o momento politico.



Clique aqui para ver o video supra referido na cinemateca.